Statue of the figure of Justice holding scales
Por Lisiane Schmidel.
Como advogada já ouvi diversas vezes que “advogado não é bom em números”, eu mesma não me considero “boa em números”, mas isso não deve ser um delimitador. Não ser afeito às complexas operações matemáticas, não significa que não se deva despertar interesse em questões básicas do cotidiano que pode nos render experiência tal a nos capacitar às diversas atividades que existem em uma rotina empresarial. Atitudes que podem parecer banais no dia à dia, são essenciais para que se possa estabelecer um diálogo com um cliente-empresa, como por exemplo, ter noção sobre declaração de imposto de renda, operações bancárias e investimentos, saber distinguir na prática os títulos de crédito e compreender evolução de juros e correção monetária.”Não ser bom em matemática”, não deve ser desculpa para não conhecer sobre tais assuntos, afinal, como um advogado pode pretender defender uma empresa, se sequer irá compreender a rotina típica de uma, às voltas com questões tributárias, comerciais e de RH (só para citar algumas) a todo o momento? Ainda que o profissional não seja Expert em tributos ou títulos de crédito, é importante um minimo de noção, até mesmo para poder identificar qual área de atuação deverá ser acionada para a solução do caso. Como advogada que atua na área empresarial, percebo o quão comum é, surgirem clientes desorientados e desanimados em virtude de terem procurado anteriormente profissionais que por sua vez, não sabiam absolutamente nada sobre a celeuma, ao ponto de sequer ser capaz de indicar um profissional hábil, e ainda, dando o case como perdido, o que gera consequências que podem ser determinantes ao sucesso da demanda, já que o tempo, caros colegas, bem sabemos que é de salutar importância no Direito, pois trabalhamos com prazos e precisamos evitar a perda do direito de ação ou até do próprio direito, processualmente falando, mas também para conseguirmos ajustar a causa, do ponto de vista de uma boa instrução, almejando óbvio, uma vitória. Isso, portanto, demanda tempo de buscas em cartórios, documentos contábeis e fiscais, provas diversas, o que é natural em qualquer área de atuação. Como reza o velho brocardo – Dormientibus non succurrit jus – (O Direito não socorre aos que dormem). Portanto, um profissional alheio às questões que minimamente deveriam fazer parte do cotidiano de qualquer pessoa, pode ser fatalmente responsável pela vida de uma empresa, ou até de uma pessoa, que por ele seja “des”orientada.
Portanto, é inconcebível que um profissional que pretenda atuar na área empresarial simplesmente seja ignorante, por exemplo, aos motivos de devolução de um cheque (alíneas), ou sobre como se dar baixa em um título protestado. Não é possível tratar com uma empresa sem jamais ter prestado atenção em uma nota fiscal ou compreender uma operação de crédito trivial. O cliente sabe perfeitamente identificar quem sabe dialogar sobre estes temas com tranquilidade e quem “finge” entender.
A alienação é defeito em qualquer situação e profissão, e o profissional do direito que achar que optando pela área de família, por exemplo, jamais irá se deparar com questões básicas fiscais ou tributárias, irão sentir dificuldade imensa no primeiro divórcio com patrimônio ou inventário, em que se depararem. Morto também tem de prestar contas, aliás.
Por fim, quero alertar que se o advogado resolver que será um profissional liberal, tenho uma notícia à dar: se quiser ter êxito e crescer como profissional, deverá ter noções de finanças, de administração e de gestão de pessoas. Nem se aproprie da cansativa desculpa de que a faculdade não prepara o estudante, ou não o habilita à tais vieses da atividade advocatícia, pois a vida, a todo momento, te mostra tais necessidades, e se ainda hoje não despertantes para isso, sempre é tempo. Neste caso, poderíamos usar o ensinamento do velho brocardo dormientibus non succurrit jus, substituindo o jus (direito) por vitae (vida).

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